Ousa descobrir a magia na tua jornada

Marta Correia

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Marta Correia - Photo submitted by author.

Lagos e rios. Trilhos e ruas. Urbano e natureza. Flora e fauna. Passado, presente e futuro. Outono, Inverno, Primavera e Verão. Assim é a Caminhada da Marina Greenway. Uma combinação mágica de todos os elementos, que te transporta para outro mundo, um mundo de descoberta. Um mundo que te desafia a descobrir magia onde quer que vás.

Ao entrar neste percurso sou imediatamente desafiada pelos típicos céus cinzentos de Cork e ameaçadoras nuvens negras. A rua adiante está protegida por árvores altas que fazem da entrada um mistério sem fim à vista. Um túnel verde esmeralda. Como se fosse um portal mágico.

As árvores ao longo do percurso parecem vir desde as profundezas da terra, estendendo-se até ao céu, como se estivessem conectando os dois mundos. Como começa a chover, eu procuro abrigo. Não tenho genes Irlandeses, portanto, quando chove eu fujo. De repente as árvores que de início pareciam tão aterradoras e misteriosas, abrigam-me, estendendo os seus braços para me proteger do frequente chuvisco. Olho à minha volta e tudo parece imóvel no feitiço da chuva. O único movimento visível é o das gotas caindo lentamente, como se estivessem a decidir o seu caminho para baixo. As folhas estão pesadas com água e são forçadas a ceder, deixando a água seguir o seu curso. Enquanto a água cai, o cheiro a terra emerge e preenche o ar à minha volta. As suas muitas camadas dão-lhe diferentes texturas e grande intensidade. Eu saboreio este aroma como se estivesse a comer. Fecho os olhos e deixo-me mesmo senti-lo. Nós frequentemente esquecemos de saborear coisas que não são comida, não é? Mas devíamos. Não, aliás, temos que o fazer. Para sobreviver e verdadeiramente viver esta vida temos que saborear tudo o que podemos. É para isso que se vive, para sentir. Cada cheiro, cada paisagem, cada briza. Com os nossos olhos, ouvidos e toque, até com as nossas memórias. Guarda para mais logo, pois a nostalgia há de bater à porta e precisará de algo para saborear. Dá-lhe algo que valha a pena.

Uma combinação mágica de todos os elementos, que te transporta para outro mundo, um mundo de descoberta. Um mundo que te desafia a descobrir magia onde quer que vás.

Como em Cork temos todas as estações num só dia, a chuva e o nevoeiro estão a começar a dissipar-se, dando espaço para uma versão mais solarenga deste percurso. O Sol esforça-se seriamente para estender os seus raios através das aberturas que encontra no céu nublado e no denso teto de ramos. Aproveito a mudança de atitude do clima e viro à direita, afastando-me do percurso inicial para uma ampla área aberta. Ainda verde, sempre verde e viva. No entanto, esta área é ainda mais viva, zumbindo com energia. Há crianças a correr, brincando nos seus pequenos mundos imaginários, e casais andando de mãos dadas, emergidos nas suas risadas e olhares apaixonados. Outros estão a correr e a andar de bicicleta, aproveitando ao máximo o ar limpo. Mais escondidos encontram-se os observadores de pássaros e fotógrafos, hipnotizados com a vida e diversidade de frente dos nossos olhos. Vê-se famílias, amigos e até pessoas solitárias, perdidas nos seus pensamentos no meio da vegetação.

No centro desta área encontra-se o lago Atlântico.  Enquanto caminho ao longo do lago, noto, primeiramente, as famílias de cisnes e patos, nadando pacificamente. Agora, olhando com mais atenção e intenção, permito-me ver mais e mais. Vejo as folhas e pétalas decorando o lago. A superfície do lago reflete as nuvens no céu e as pessoas que caminham de perto. Há pequenos insectos a brincar na água, causando pequenas ondulações que parecem ser pinceladas numa tela. Subitamente, o que poderia ter sido um lago comum, tornou-se numa pintura viva à minha frente. Para absorver o que vejo tiro um momento sentando-me num dos bancos. Enquanto sinto a briza leve, deixo-me deslumbrar pelo quão cinemática esta cena parece. Magia está onde quer que queiramos.

Fecho os olhos e deixo-me mesmo senti-lo. Nós frequentemente esquecemos de saborear coisas que não são comida, não é?

Apesar do quão cativante é mergulhar nesta quietude, decido proceder com o meu passeio. Continuo observando a diversidade de tudo o que me rodeia. Independentemente da profunda vegetação, não é tudo igual. Algumas árvores são altas enquanto outras não. Os arbustos são distintos entre si. Também há um mundo de flores das mais variadas cores. Amarelas, brancas, azuis, roxas, rosas e mais. Pergunto-me se consigo encontrá-las a todas? Algumas das flores exibem uma cor singular e arrojada, enquanto outras replicam o arco-íris.

Enquanto admiro as flores, sou distraída pelo movimento de pássaros por entre a folhagem verde. Admito que não sei muitos nomes de pássaros, mas consigo ver que há uma variedade deles. Pessoalmente, os piscos de peito ruivo são os meus favoritos. Não simplesmente pelo significado que as pessoas costumam atribuir a este pássaro, de esperança e sinal de boa sorte, mas porque há algo de especial na leveza e alegria deste passarinho a saltar por aí tão feliz com o seu peito laranja e alegre chilrear.

Há outros pássaros aqui que são mais tímidos, cantando lindamente mas escondidos por entre a densa vegetação. Não consigo evitar pensar nesses pássaros como aquelas pessoas que só conseguem cantar nos seus chuveiros. Nesses momentos, as pessoas perdem-se nos seus pequenos mundos, vulneráveis e expressando-se sem julgamento deles mesmos ou de outrem. Se calhar estes pássaros são iguais, talvez também tenham timidez de ser observados a cantar. Não obstante, todos estes diferentes pássaros unem-se cantando numa orquestra incomparável. É a minha própria trilha sonora. A minha tarde cinemática com a sua compilação original. (Nem precisa de Wifi). Simultaneamente, consigo ouvir outro tipo de chilrear, a sua versão humana. Ouço risadas e palavras aleatórias em Inglês mas também em Espanhol, Português, Árabe, Shona, Bengali e muitos outros idiomas. Este belíssimo percurso é caracterizado não só pela biodiversidade mas diversidade cultural. 

Caminhando mais à frente chego ao parque Holland Marina, à minha direita, enquanto o rio Lee se encontra à minha esquerda. Do outro lado do rio tenho um vislumbre da vida que coloquei em pausa para aqui estar agora. Vejo as casas, carros, e barulhos mecânicos.  Sons do que é chamado ‘civilização’. Esta caminhada revela-me o contraste entre uma vida de quietude e uma vida de contínua agitação. Uma à minha esquerda e a outra à minha direita. Eu encontro-me no meio, como um lembrete de ter que encontrar equilíbrio na vida, de manter serenidade sem ficar bloqueado na passividade. Independentemente de quão mágica é esta caminhada, não deixa de ser realidade. Não é uma caminhada fictícia de um livro. O que só torna a magia desta caminhada ainda mais exceptional. 

Entretanto, ao olhar para baixo, noto no mais pequeno e puro detalhe. Pegadas de um pequeno cão marcadas no pavimento. Mais um contraste, desta vez entre a efemeridade e a perpetuidade da vida. Nunca saberei há quanto tempo este cão deixou a sua marca aqui e esse momento foi único e breve para esse cão. No entanto, para mim, a sua marca definindo esta parte do pavimento, tornou-se permanente no pavimento e na minha memória.

Simultaneamente, consigo ouvir outro tipo de chilrear, a sua versão humana. Ouço risadas e palavras aleatórias em Inglês mas também em Espanhol, Português, Árabe, Shona, Bengali e muitos outros idiomas.

Mais adiante, entro noutra fase deste percurso, uma fervendo com vida e energia. O mercado de Blackrock. A caminhada solitária foi substituída por trocas de amáveis sorrisos e cumprimentos. Sinto-me tentada a parar e re-energizar-me com uma bebida e comida. Escolhi uma bebida refrescante e uma sanduíche fresca que pretendo consumir alegremente junto à àgua. As afáveis e hospitaleiras pessoas de Cork fazem conversa enquanto todos desfrutamos do bom tempo. De seguida, preparo-me para finalizar a minha jornada conquistando a subida até o castelo de Blackrock Observatory. Que jornada seria esta sem uma subida, não é? A vista serena do rio e adornado pelo verde ajuda-me a esquecer o esforço da subida. A combinação do famoso verde esmeralda da Irlanda com a vibrante azul do rio faria com que qualquer esforço valesse a pena. Ao chegar ao final do percurso, permito a minha imaginação brincar, imaginando que acabei a minha missão corajosa ao alcançar o castelo. Talvez com uma mensagem importante para alguém, ou, na realidade, com um dia cheio de memórias e uma mente mais rica e feliz.

Longh Mahon Public Walk fornece-me com um banco que me permite realmente terminar a minha jornada. Não consigo evitar maravilhar-me com toda a magia que me permiti absorver hoje. Este percurso deu-me mais do que imaginava, e acima de tudo, relembrou-me da beleza deste mundo. Um mundo repleto de magia em cada folha, pássaro, lago e aroma. Um mundo feito de exploradores, buscadores e sonhadores. Cada um na sua própria aventura, vendo diferente magia à sua volta, na mesma direcção mas com diferentes sonhos e perspectivas.

Essa é a parte mais mágica de todas: cada jornada é única. Ousas descobrir a magia na tua?

 

Dare to find the magic in your journey

by Marta Corriea

Lakes and rivers. Trails and streets. Urban and nature. Flora and fauna. Past, present and future. Autumn, winter, spring and summer. That is the way of the Marina Greenway walk. A magical combination of all elements that transport you to another world, a world of exploration. A world that defies you to find magic everywhere you go. 

While entering the walk I am immediately challenged by the typical Cork grey skies and the threatening heavy clouds. The street ahead is sheltered by tall trees that make its entrance a mystery with no ending to be seen. An emerald green tunnel. Almost as if it is a magical portal.  

I savour it as if I am eating it. Close my eyes and really let it in.

The trees along the path seem to be coming from the inside of the earth and reaching out for the sky as if connecting the two worlds. As it starts to rain, I look for shelter. I have no Irish genes so when rain starts to come down, I run. All of the sudden, the once threatening and mysterious trees now shelter me, spreading their arms to protect me from the often drizzle. I look around me and everything seems still under the rain spell. The only movement are the drops dripping slowly as they choose their way down. The leaves are heavy with water and are forced to bend down to let the water run its course. While the water drops, the earth scent surfaces and fills the air around me. It is deep and layered with different textures. I savour it as if I am eating it. Close my eyes and really let it in. We often forget to savour things that are not food, isn’t it? But we should. No, actually, we must. To survive and truly live this life we should savour everything we can. That is what living is for, to feel. Every scent, every landscape, every breeze. With our eyes, ears and touch, and even with our memories. Save it for later. Nostalgia will eventually knock and will need something to nibble on. Give it something worthwhile.  

Because Cork has all seasons in one day, the rain and fog starts to dissipate, giving space for a sunnier version of this path. The Sun tries harder and harder to extend its sunbeams through openings in the cloudy sky and the dense ceiling of tree branches. I take advantage of the change of heart of the weather and make a right, getting away from the initial path into a wide open area. Still green, always green and alive. However, this area is even more alive, buzzing with energy. Children are running around, playing in their own little worlds of imagination. Couples are strolling around holding hands, immersed in their loving stares and giggles. Others are running and cycling, making good use of the clean air. More hidden are bird watchers and photographers, mesmerised by the life and diversity in front of our eyes. There are families, friends and even loners, lost in their thoughts among the greenery.  

There are small insects playing on the water, causing small ripples as if they were strokes of paint.

At the centre of this open area there is the Atlantic Pond. While walking along the pond I firstly notice the swans and duck families swimming around peacefully. Now, taking a closer and intent look, I allow myself to see more and more. I see leaves and petals decorating the pond. On the surface of the pond there is a reflection of the clouds above and of the people walking by. There are small insects playing on the water, causing small ripples as if they were strokes of paint. Suddenly what could have been an ordinary pond becomes a living painting in front of my eyes. I seat on one of the benches to take a moment to absorb it. While feeling the light breeze I marvel at how cinematic this whole scene feels. Magic is anywhere we want it to be.  

Regardless of how sweet it is to dive in this stillness, I decide to continue strolling around. I keep noticing the diversity of everything around me. Despite the immense greenery, it is not all the same. Some trees are tall, others not. There are distinct bushes as well. There is also a world of flowers of all colours. Yellow, white, blue, purple, pink and more. I wonder if I am able to find them all? Some flowers showing off their one bold colour and others replicating a rainbow.  

While looking at these flowers my sight is diverted by the movement of the birds among the foliage. Admittedly, I do not know many bird names, but I am able to observe that there is a variety of them. Personally, robins are my favourites. Not just simply because of the meaning people often attribute to seeing a robin, such as hope and good things to come, but because there is something special in the lightness and joy of this little bird that hops around so happily with its orange chest and cheery chirping. 

The walk shows me the contrast of a life of stillness and a life of continuous hustle. One on my left and the other on my right. I am in the middle as if a reminder of the need for balance in life.

Other birds here are shyer and sing beautifully but hidden within the thick foliage. I cannot help but think of these birds as people who only sing in their showers. In that moment we are lost in our little worlds, vulnerable and expressing ourselves without judgement from ourselves or others. Maybe these birds are the same, maybe they are also shy to be seen singing. Nonetheless, all these different birds are united singing in an unparalleled orchestra. My own soundtrack in this path. My cinematic afternoon with its original playlist. (No WiFi needed). Along with it, I hear another kind of chirping, a human version. I hear gingles and random words in English but also Spanish, Portuguese, Arabic, Shona, Bengali and many other languages. This beautiful path is characterised not only by its biodiversity but also by its cultural diversity. 

Walking more ahead I reach the Holland Marina Park which is on my right, with the river Lee on my left. On the other side of the river there is a glimpse of the life I paused to be here today, with houses, cars and mechanical noises. Noises of what is called ‘civilisation’. The walk shows me the contrast of a life of stillness and a life of continuous hustle. One on my left and the other on my right. I am in the middle as if a reminder of the need for balance in life. Of being able to preserve stillness without getting stuck in passivity. No matter how magical this walk is, it is still reality, not a fictional walk from a book. Which makes its magic even more remarkable.  

Close my eyes and really let it in. We often forget to savour things that are not food, isn’t it? But we should.

Meanwhile, looking down my eye catches the smallest and purest detail. Marks of small dog paws on the pavement. Another contrast, this time, the opposition of ephemerality and perpetuity of life. I will never know how long ago this dog left his mark here and that moment was unique and short lived for them. However, for me now seeing his paws so well defined on the pavement, it has become permanent both on the pavement and in my memory of this walk.  

Already further ahead in my journey I enter a new phase of this walk, a walk bubbling with life and energy. The Blackrock Market. The lonely walk has been changed into exchanges of warm smiles and greetings. I am tempted to stop and re-energize myself with a drink and sustenance. I pick a cool drink and a fresh sandwich which I happily eat near the water. The typically friendly and hospitable people of Cork make conversation while we all enjoy the lovely weather. Afterwards I set myself to finish my quest by conquering the hill up to the Blackrock Observatory Castle. What journey would this be without a climb? The serene view of the river and adorning green makes me forget the effort of the hill. The combination of Ireland’s famous emerald green along with the sparkling blue water makes any hill worthwhile. Arriving at the castle I allowed my imagination to play around imagining I had just completed my brave quest by reaching the castle. Maybe with a honourable message to someone, or, in reality, with a full day of memories and a richer and happier mind.  

No matter how magical this walk is, it is still reality, not a fictional walk from a book. Which makes its magic even more remarkable.  

Lough Mahon Public Walk provides me with a bench that allows me to truly finish my journey. I cannot help but marvel at all the magic that I allow myself to absorb today. This walk provides me with more than what I have imagined, but most of all, it reminds me of the beauty of this world. A world filled with magic in every leaf, bird, pond and scent. A world filled with seekers, explorers and day dreamers. Each on their own adventure, seeing different magic around them, in the same direction but with different dreams and perspectives.  

That is the most magical part, each journey is unique. Do you dare to find the magic in yours?  

 

Marta Correia was born in Portugal. She grew up in different places in her home country but also in Venezuela, her mother’s native country. Before moving to Cork she lived for 7 years in Dubai, U.A.E.. Additionally, she has visited more countries than she can count, which she is very grateful for as these experiences made her who she is. 

She is a mature student in UCC studying Social Work. She is also the current chairperson of the UCC  Fáilte Refugees Society and is involved in the IASW Anti Racism Strategy.

Marta is especially interested in refugee/asylum seekers and migrant issues, feminism, anti racism, and community development. In her free time she enjoys being in nature, being with like minded people, reading and writing.

 

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